PROJETO DE LEI Nº 58/2003
EMENTA: Altera o nome da Escola de Ensino Fundamental e Médio Joaquim Nogueira para Escola de Ensino Fundamental e Médio Frei Lauro Schwarte.
Art. 1º. Fica alterado o nome da Escola de Ensino Fundamental e Médio Joaquim Nogueira, pertencente a rede Estadual de Ensino e localizada na rua Antônio Pompeu, 2002, bairro Farias Brito, para Escola de Ensino Fundamental e Médio Frei Lauro Schwarte.
Art. 2º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação , revogada as disposições em contrario.
PAÇO DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO CEARÁ, aos 24 dias do mês de abril de 2003.
JUSTIFICATIVA
Frei Lauro Schwarte nasceu na Alemanha, em 04/12/1935, em fase de grande turbulência política, na seqüência das crises econômicas sucessoras da I Guerra Mundial, que marcaram profundamente o povo germânico, açoitado por desemprego, privação de toda ordem, e, sobretudo humilhado, e propiciaram, ao lado de outros determinantes, condições favoráveis à instalação de regime nacional-socialista. A ascensão nazista trouxe consigo infortúnios irreparáveis à humanidade, e ao incitar a beligerância entre nações, produziu uma das mais sombrias páginas da história humana, configurando uma nódoa inapagável de nossa civilização.
É nesse ambiente da II Grande Guerra, que o pequeno Johann consumirá parte de seus anos de vida infantil – certamente uma infância esquecida e tolhida em sua inocência – e ainda que o conflito militar tenha se encerrado em 1945, sua adolescência seria igualmente comprometida, e talvez violada, face às agruras impingidas usualmente aos derrotados (Ai dos vencidos! Como dizia Breno), os quais sofrem não, apenas fisicamente, diante da degradação da auto-estima, que corrói as esperanças de reconstrução individual e coletiva. Com efeito, os anos iniciais do pós-guerra foram sobejamente difíceis para um jovem que viu sua pátria dividida e ocupada por tropas dos países vencedores, com muitas cidades arrasadas por bombardeios, e tendo que reedificar e pôr para funcionar o aparato urbano a partir de uma economia em frangalhos.
No vigor da juventude, motivado pelo desejo de servir ao próximo, teve despertado a sua vocação sacerdotal, optando por ingressar na Ordem dos Franciscanos Menores, irmandade que professa votos de pobreza, humildade, castidade e obediência, de conformidade com os preceitos advindos do "poverello" de Assis. A convocação divina tira-o do trabalho fabril e interrompe uma quiçá carreira de futebolista de um time de Düsseldorf. Pouco tempo após a sua sagração é indicado para exercer seu ministério em terras brasileiras, chegando inicialmente na Bahia, à época dos primórdios do período de exceção vivido por nossa gente, sob o tacão militar.
Transferindo para Fortaleza, aqui aporta em 1967, quando contava então 31 anos. O convento dos franciscanos tinha um expressivo número de frades, e os alemães formavam boa parte deles, porém aquele recém-chegado causava uma certa inquietação entre crianças e adolescentes na Paróquia de N. Sra. Das Dores, dominados que éramos pela curiosidade. Impressionava pelo porte físico: auto e forte, por seus cabelos loiros e olhos azuis.
Desde o princípio, estava explícito o desejo de Frei Lauro em trabalhar com os jovens. Começou oferecendo reuniões catequéticas aos sábados, a partir de duas horas da tarde: tínhamos orações, preleções, sabatinas bíblicas, mas também canções religiosas e profanas, estas talvez como exercício de solfejo a recordar: "kim gam guli" e a do "quando Fernando Sétimo usava paletó". Notava-se a sua felicidade quando contava os presentes em cada reunião, número que chegava a suplantar as duas centenas de adolescentes entre 12 e 15 anos, em sua maioria; antes do encontro, o salão paroquial estava franqueado para jogos de mesa: tênis de mesa, xadrez, dama, gamão etc..., e ao término da reunião, podia-se participar de futebol de campo e de salão.
Dentre os freqüentadores mais regulares daqueles encontros sabáticos, formou um grupo embrionário que viria a se constituir no JOB (Juventude de Otávio Bonfim), que agregaria muitos rapazes e, também algumas moças, na sua versão feminina. Os componentes do JOB eram uma base operacional no trabalho de Frei Lauro que a eles concedia o especial cuidado. Este grupo tão especial, que dele merecia uma atenção diferenciada, era alvo da chacota dos excluídos que pejorativamente tachavam seus integrantes de "Filhos do Lauro".
Nos penitenciamos diante do trabalho abnegado de Frei Lauro, que forjou a formação de centenas de cidadãos honrados e responsáveis em cada localidade onde exerceu o seu labor missionário. Sabia com muita propriedade dosar a preparação catecumênica com o incentivo a práticas esportivas e à promoção cultural, onde a música ocupava posição privilegiada. Em alguns incutiu o gosto pela música erudita e em outros, a prática enxadrista, tão pouco comum entre os jovens. O salão de Santo Antônio era um recinto utilizado também para campeonatos de tênis de mesa, xadrez, dama, avidamente disputados, e palco para as mais diversificadas atividades culturais.
Atento ao seu tempo, via na educação um instrumento de recuperação social e de progressão econômica. Consegui beneficiar inúmeros jovens provenientes de famílias desprovidas de recursos materiais, aos quais se prognosticavam a reprodução das condições de pauperização de seus genitores ou até mesmo o desencaminhamento para uma vida de marginalidade. A eles, com esforço inquebrantável, garantiu "bolsas" para que estudassem em bons "cursinhos" preparatórios para o vestibular: para isso, recolhia doações entre empresários locais, e angariava fundos entre seus compatriotas, de forma a custear tais estudos. Tal como um pai zeloso, dirigia uma "Kombi" para trazer seus rebentos ao aconchego do lar ou mesmo para o convento, onde davam continuidade aos estudos que o desafio da aprovação no vestibular cobrava de cada postulante. Incutia entre os seus,
digamos "quase filhos", a boa prática da divisão do saber e quem sabe "o princípio dos vasos comunicantes", redundando em amplo desenvolvimento de todos.
Sob a sua batuta, orquestrou a formação de muitos profissionais: professores universitários, engenheiros, médicos, jornalistas, economistas, dentre outros, que tem presença marcante em seus segmentos de atuação e reconhecimento social pelo trabalho desenvolvido.
O ano de 1979 foi pesaroso para muitos que formavam a comunidade católica do bairro de Otávio Bonfim e de suas adjacências, pois, após 12 anos de profícua atividade entre nós, Frei Lauro fora transferido para outro estado nordestino; a tristeza que abatia a tantos igualmente o contaminava, mas os votos da obediência seráfica impeliam-no a cumprir os ditames de seus superiores da Província Franciscana do Nordeste. É lógico que o nosso compreensivo egoísmo significava privar outros irmãos nordestinos do convívio com Frei Lauro e, da mesma forma, tolher a experiência que poderia usufruir por servir novas comunidades, como de fato prestou em Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Bahia e por último na Paraíba, para as quais levava as mesmas práticas aqui vivenciadas.
Em setembro de 1999, por ocasião da visita a seus familiares, aproveita para fazer exames médicos para um problema de saúde recém-manifesto, recebendo o temível diagnóstico do câncer pancreático, que assusta a todos os médicos pelo prognóstico sombrio, em muito curto espaço de tempo. Ciente da gravidade de sua doença, decide burlar a vigilância de seus familiares e médicos da Alemanha, marcando o retorno ao Brasil, pois preferia ter seus derradeiros dias em Campina Grande, como um pastor entre as suas ovelhas. Tal desiderato foi sorrateiramente obstado por súbito distúrbio cardiovascular que determinou a sua internação em uma UTI, onde aos 63 anos exalou o seu último suspiro em quatro de novembro de 1999, retornando ao Pai eterno, assistido por seus pais e irmãos de sangue.
Vinte anos decorridos de sua transferência de Fortaleza não bastaram para que fosse olvidado entre nós. Sua partida definitiva foi pranteada aqui e alhures com um misto de saudade e dor, mas também de reconhecimento pela obra social de envergadura para cada paróquia servida por ele. A Câmara Municipal de Fortaleza, por iniciativa do vereador Dr. Glauber Lacerda Sindeaux, registrou o voto de pesar extensivo às comunidades franciscanas brasileiras e européias, e o Senador Dr. Lúcio Alcântara fez exarar nos Anais do Senado Brasileiro a inscrição de tão lamentável perda para as populações de paróquias nordestinas que tinham nele um lenitivo para mitigar seus sofrimentos.
Por fim é digna de encômios a proposição desta augusta casa de homenagem ao cidadão brasileiro Lauro Schwarte com o nome de uma escola na comunidade onde viveu e serviu a muitos, de modo a preservar e perpetuar a sua memória.
Por outro lado nosso ilustre Joaquim Nogueira já é homenageado e lembrado com o seu nome aposto em outra escola da rede estadual, também localizada em Fortaleza a Escola de Ensino Médio Joaquim Nogueira, e ainda também em uma escola da rede do município de Fortaleza.
Por todos os motivos acima expostos é que proponho a justa homenagem através deste projeto de lei. No entanto, seguramente como franciscano e avesso ao que se convenciona rotular como ecos da vaidade humana, se vivo fosse, nosso homenageado renegaria ou desestimularia quaisquer iniciativas desse naipe. Como não mais está conosco, nos sentimos à vontade para propugnar comendas e títulos relativos aos seus feitos, de maneira que não apenas as novas gerações tenham a devida ciência de sua obra como estimulante para que outros enveredem por trilhas semelhantes, em prol de servir ao próximo como um irmão.