Projeto de
Lei n129/2003
Concede o título de Cidadão
Cearense a José Lourenço Gomes da Silva, o Beato José Lourenço (in memorian)
Art. 1º - A Assembléia Legislativa
do Estado do Ceará, na forma regimental e ouvido o Plenário, concede título
honorário de Cidadão Cearense a José Lourenço Gomes da Silva, o Beato José
Lourenço (in memorian) na forma que
indica.
Art. 2º - Esta lei entrará em
vigor na dada da sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
O presente projeto de lei tem como
objetivo reabilitar a imagem de um homem que pode e deve ser incluído como um
dos vultos mais importantes da história do Estado do Ceará.
José Lourenço, homem rude,
analfabeto, soube como nenhum dos nossos mais letrados governantes e
administradores, tanto da época em que viveu como os de hoje, provar na prática
e com pleno êxito, como a vida em comunidade e a divisão social do trabalho,
sem a visão do lucro, pode reverter em vida digna e farta para todos. Um homem
que nunca ouviu falar em Marx, em Baconin nem em nenhum dos grandes pensadores,
conseguiu exercitar a vida em comuna de forma tão plena que era possível
dividir o excedente com aqueles mais necessitados que acorriam de fora, nos
momentos em que a seca mais uma vez castigava o sertão.
O Caldeirão era uma afronta à
incompetência corrente à época. Nenhum dos membros das nossas elites tão fartos
de pobreza de espírito poderia aceitar que o povo, seu “rebanho” cativo lhe
saísse do controle e era preciso “dar o exemplo” o mais rápido possível, para
que ninguém mais se atrevesse a “sair da linha”.
Assim, o Caldeirão foi
sumariamente destruído sob os auspícios do governo federal, que autorizou e
apoiou essa ação aproveitando o momento em que o País vivia uma espécie de
histeria anti-comunista, época em que Getúlio Vargas preparava o golpe de 1937.
A experiência do Caldeirão foi
viabilizada por um homem que acreditava apenas no amor ao próximo, que levou
essa máxima à rotina do dia-a-dia, retirando-a da retórica do catolicismo
burguês, que acreditava poder comprar um lugarzinho no céu com o dinheiro ganho
às custas do sangue dos menos afortunados.
José Lourenço foi tratado como um
bandido, quando na verdade deveria receber honrarias reservadas aos heróis, e
foi sepultado sem os sacramentos a que prezava mais que a própria vida, quando
deveria ter sido homenageado por todo o clero, pois foi um desses raros seres
que, iluminados, conseguiram observar os ensinamentos de Cristo de forma plena,
simples e sem absolutamente nenhum fanatismo, sem a pretensão de fundar nenhuma
seita, nenhuma nova religião, desejo comum apenas a nós, pobres mortais,
contaminados que somos pela vaidade de nos considerar maiores e melhores que os
outros, nossos irmãos.
Airton de Farias, em seu livro O
Caldeirão Vivo diz:
“O Caldeirão foi destruído, mas
não derrotado. Enganam-se as camadas proprietárias de que a comunidade do Beato
José Lourenço está morta. O grito da insatisfação dos nordestinos continua no
ar! O Caldeirão está vivo! Vivo no olhar triste do garoto de rua que sonha em
ser feliz! Vivo na angústia dos desempregados! Vivo nas mãos calejadas do
sertanejo que trabalha de sol a sol! Está no esforço dos operários e moradores
das periferias das cidades! Está vivo nas ações de todos os oprimidos! O
Caldeirão está em nós! Vida longa ao Caldeirão”.
Acreditamos que é nosso dever, enquanto educadora em
primeiro lugar, pois esta é a nossa profissão e compromisso de cidadania, e
enquanto parlamentar, função que exercemos transitoriamente, representando o
povo cearense e, de forma muito especial, o Cariri, envidar esforços no sentido
de garantir à população o acesso à informação. É, pois, uma questão de honra
resgatar o trabalho do Beato José Lourenço e conduzi-lo ao lugar que lhe é
devido na história do nosso Estado. É indispensável fazer-lhe justiça, ainda
que tardia.
Anexo texto produzido pelo Professor Airton Farias com breve
histórico sobre o Beato José Lourenço.
SALA DAS SESSÕES DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA, AOS
Íris
Tavares
Deputada
Estadual – PT
Presidente
da Comissão de Meio Ambiente e
Desenvolvimento
do Semi-Árido
HB/hb