PROJETO DE INDICAÇÃO 27.09
CRIA NO ESTADO DO CEARÁ O MEMORIAL DOM HELDER CÃMARA
A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO CEARÁ DECRETA:
Artº 1º Cria, através do Governo do Estado do Ceará, o memorial “Dom Helder Câmara”.
Artº 2º Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogando-se as disposições em contrário.
Sala das Sessões da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará em 03 de março de 2009.
Deputado Nelson Martins
Partido dos Trabalhadores
Justificativa
Este projeto surgiu de uma iniciativa do ex-vereador José Maria Pontes, que o apresentou no âmbito do município de Fortaleza; o memorial dom Helder Câmara poderá ser construído pelo Governo do Estado do Ceará, que se justifica com o histórico de vida do sacerdote durante sua caminhada em busca de uma maior valorização do ser humano.
Dom Helder Câmara foi, sem dúvida, um marco na igreja do Brasil dos últimos 50 anos que com seu exemplo e modo de agir, ajudou a mudar profundamente. Sua influência não se limitou ao Brasil: as numerosas viagens que fez ao exterior, às vezes dificultadas por mal-entendidos das autoridades militares e religiosas, fizeram dele uma figura mundialmente conhecida, amada e não pouco contestada.
Foi um dos idealizadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB), organização copiada por bispos de outros países, e seu primeiro presidente. No Rio de Janeiro, atuou como bispo coadjuntor e, em Olinda e Recife, como arcebispo.
“Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando respondo porque é que os pobres têm fome – chamam-me comunista”: foi assim que dom Helder resumiu suas dificuldades com as autoridades políticas e religiosas, quando era contestado a propósito de sua obra social e profética em favor de uma maior igualdade e justiça no País e dentro da igreja. Não raramente se referiam a ele como o “bispo vermelho”, especialmente nos duros tempos da ditadura.
Ele desejava uma igreja mais participativa, orientada para a defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais. Quando foi substituído, em 1985, em seu serviço como arcebispo de Olinda e
Recife, retirou-se para viver de maneira simples, coerente, até o fim da vida, com seu posicionamento a respeito da pobreza. Sua batina branca era surrada, celebrava suas missas sem pompas, morava numa casa modesta na periferia da cidade do Recife; dizem que nunca aceitou um convite para comer em restaurantes.
Sua obra, de fato, não o apresenta como teólogo, filósofo ou revolucionário teórico, mas como um pastor, no sentido mais amplo da palavra, preocupado com o bem-estar social e religioso do povo que ele amava.
Sua atuação transformadora começou a se manifestar, quando foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, aos 43 anos. Além de ter sido um dos fundadores da CNBB(1952), também o foi da Conferência Episcopal Latino-americana(CELAM). No início dos anos 60, dom Helder dedicou-se à preparação do Concílio Vaticano II convocado por João XXIII.
Realizando seus sonhos e suas aspirações de justiça social e caridade, dom Helder deixou várias obras como a Obra do Frei Francisco, criada ano Rio de Janeiro; iniciou o Banco da Providência, hoje ampliado, que centralizava doações e as distribuía entre a população pobre. Também criou no Rio de Janeiro um projeto de urbanização de favelas, conhecido como Cruzada São Sebastião.
Em Pernambuco, realizou a primeira experiência de reforma agrária, comprando terras na Zona da Mata e assentando trabalhadores rurais.
Depois do golpe militar, após um primeiro período de convivência pacífica com o exército, ao ver a violação brutal dos direitos humanos com a caça aos chamados comunistas, dom Helder passou a atuar em defesa dos presos políticos e contra a tortura no Brasil, cuja existência o governo militar procurava negar de todas as formas. Foi o período em que enfrentou as maiores dificuldades, mas também de maior projeção no exterior, tendo sido acusado pelos militares e por parte do clero conservador de promover atividades comunistas no País. O religioso passou a ser visto como simpatizante da esquerda e seu trabalho em defesa de uma Igreja mais aberta incomodava o regime militar. Através de documentos secretos, divulgados no livro: “Dom Helder Câmara – entre o poder e a profecia”, de Nelson Piletti e Walter Praxedes, descobriu-se que o governo Médici(1969-1974) organizou uma campanha a escolha do religioso para o Nobel da Paz, indicação promovida pelo episcopado alemão.
O bispo dos pobres soube atrair as atenções de todos os que trabalham e sofrem em favor de uma sociedade mais justa, não importa qual seja seu credo. Jamais perguntou se os perseguidos políticos que defendia eram católicos, protestantes, judeus ou ateus: defendia-os não por um sentimento corporativo, mas sobretudo porque nele os valores humanos e cristãos estavam enraizados demais para fazer esta distinção. Alguém já disse que é fácil amar um amigo, muito mais difícil é amar àquele que nos contesta e dom Helder foi capaz deste amor incondicional, a ponto de colocar a vida e a segurança em risco. Não tentou ser herói, mas apenas um cristão consciente de suas responsabilidades com a humanidade.
Deputado Nelson Martins
Partido dos Trabalhadores